|

O
desafio da redução do custo do capital no Brasil
é uma tarefa coletiva que envolve
o Executivo, o Banco Central, o Congresso, o Judiciário,
o Sistema Financeiro e a própria
sociedade
10.06.2003
Se
o custo do capital é alto no Brasil, trata-se de um
fenômeno que precisa ser compreendido e gradualmente
superado com muito trabalho de diferentes segmentos da sociedade.
O melhor caminho para chegarmos um dia a uma boa estrutura
de financiamento do desenvolvimento que permita reduzir o
custo do investimento no Brasil é nos engajarmos todos
numa construção institucional porque a solução
não está nas mãos de um específico
agente econômico.
A
Febraban tem participado de forma franca, aberta e solidária
do debate sobre a retomada do crescimento. Tem inclusive tomado
iniciativas e saído na frente com sugestões
e propostas concretas para que haja uma melhor compreensão
das razões que explicam o spread bancário e
para que se possa tomar medidas objetivas para reduzi-lo.
Somos os maiores interessados em ampliar o peso do crédito
na economia brasileira na medida em que intermediar recursos
da sociedade é a nossa principal atividade. A modesta
presença do crédito na economia brasileira é
uma distorção, supomos temporária, que
pode ser gradualmente dissipada tão logo a inflação
e o desequilíbrio fiscal do Estado brasileiro venha
a se reduzir, como parece ser a determinação
do governo do presidente Lula. Não se pode perder de
vista que as instituições financeiras bancárias,
na qualidade de um dos financiadores do Estado deficitário,
são acima de tudo intermediários de recursos
originários da poupança privada. Entretanto,
de todos os recursos da sociedade que transitam pelo sistema
financeiro uma enorme parcela é sugada rapidamente
para o financiamento do Estado, restando relativamente poucos
recursos canalizados para os projetos do próprio setor
privado. Outro importante financiador do Estado deficitário,
diga-se de passagem o maior deles (40%), a classe média
que aplica sua poupança nos fundos mútuos e
de pensão, também deixa de canalizar suas aplicações
em projetos do setor privado porque prefere emprestar para
o governo (comprando indiretamente títulos públicos)
que remuneram melhor sua poupança do que a rentabilidade
obtida emprestando dinheiro para uma empresa privada, ao comprar
um título de renda fixa privado ou ações.
Há um grande agente atuando no mercado chamado governo
com quem não dá para competir. É ele
que forma o preço do dinheiro e o custo de oportunidade
de qualquer outro negócio no País.
Acreditamos
que as dificuldade atuais serão superadas com o empenho
de todos e a confiança no trabalho que vem sendo desenvolvido
pelas autoridades econômicas do governo do presidente
Lula. Quando a batalha da inflação estiver vencida
e as reformas aprovadas haverá inescapavelmente um
redução dos juros e do spread bancário,
na medida em que a maior oferta de recursos barateará
seu custo e alongará gradualmente seus prazos. As instituições
financeiras bancárias vêem esta trajetória
como provável. A sociedade deve compreender que somente
quando tivermos o ajuste fiscal consolidado e o Estado reduzido
substantivamente seus desequilíbrios é que o
crédito privado crescerá de forma substantiva
no Brasil.
Se
a relação crédito/PIB no Brasil caiu
cerca de 6 pontos percentuais de 2001 para hoje (de 29,5%
para 23,5% do PIB), as razões não podem ser
atribuídas de forma alguma às instituições
financeiras. Imperativos de redução da inflação
e de enfrentamento de choques de oferta e externos obrigaram
a autoridade monetária a tomar atitudes a nosso juízo
corretas de controle monetário, afetando o chamado
canal do crédito. Em outras palavras, a autoridade
monetária, contraindo a liquidez da economia, decidiu
unilateralmente reduzir a oferta de crédito no país
colaborando portanto para o seu encarecimento recente. O forte
aumento dos recolhimentos compulsórios também
explica o aumento do custo do dinheiro na medida em que tornou
o crédito mais escasso do que já era. Não
estamos nos referindo ao nível considerado alto do
spread no Brasil, mas ao aumento observado nos últimos
12 meses. Mas isso, deverá mudar tão logo a
confiança no trabalho desenvolvido pelo governo possa
reduzir o risco país e os juros praticados pelo governo
e subjacentemente pelo sistema financeiro. Tem que haver confiança
no trabalho do governo e no esforço das instituições
financeiras que têm se empenhado cooperativamente na
identificação dos fatores jurídico-legais,
tributários, administrativos e mesmo sociais que explicam
a peculiaridade brasileira de prática de spreads acima
da média mundial. Os bancos brasileiros acreditam e
apostam que as circunstâncias atuais serão superadas
caso haja uma leitura abrangente da problemática do
custo do capital no Brasil sem culpabilizar apenas um agente
econômico.
O
tema do spread deve ser analisado de forma estritamente técnica,
à luz das experiências internacionais. Não
faz sentido imaginar que os bancos no Brasil têm práticas
diferenciadas de instituições no exterior. Um
banco internacional por exemplo não pratica no Brasil
um spread muito mais alto do que no país de sua matriz
apenas porque no Brasil há situação privilegiada
para bancos ganharem dinheiro. Se fosse o caso, nos últimos
oito anos metade dos bancos não teria deixado o mercado
brasileiro ou tido seu controle acionário alterado.
Muitos
não se dão conta de que no "negócio
crédito bancário", ou seja, no investimento
creditício das instituições financeiras
referentes aos recursos daqueles que aplicam suas poupanças
nos bancos há mais risco do que numa atividade financeira
não-bancária. Em outras palavras, os bancos,
na média, caso hipoteticamente operassem numa atividade
estritamente creditícia, tomariam mais risco do que
uma atividade econômica não-financeira. Ou seja,
se o negócio bancário se restringisse única
e exclusivamente a operações de empréstimos,
a rentabilidade do negócio não diferiria muito
da média das demais atividades econômicas. Isto
porque cerca de 70% das operações de crédito
no Brasil não têm garantias reais e naquelas
importantes operações que têm garantias
reais, a qualidade das garantias nem sempre é boa e
mesmo quando é boa, as dificuldades jurídico-legais
de executá-las são imensas. Já há
ampla literatura e evidências empíricas de que
aspectos jurídico-legais afetam enormemente o custo
do crédito no Brasil. A Lei de Falências, caso
bem desenhada, retirando a primazia do Fisco no recebimento
do que é devido de tributos pela empresa em situação
falimentar (como nos Estados Unidos e em quase todos os países),
poderá contribuir muito para a redução
do spread nas operações junto às operações
de crédito para pessoas jurídicas.
As
falhas de mercado são ainda muito importantes no Brasil.
Falta-nos ainda uma central positiva de clientes para que
o bom pagador, uma vez identificado, não seja penalizado
pela inadimplência de outros, evitando assim a continuidade
do processo de seleção adversa que existe atualmente.
Há também os chamados "custos de observância"
elevados na medida em que a autoridade que superviviona o
sistema financeiro requer um forte aparato administrativo
para supri-la das informações necessárias
para a gestão do risco sistêmico. Os custos administrativos
requeridos para administração da inadimplência
e para os esforços jurídicos e legais visando
a recuperação dos créditos são
elevados. Além disso, a desproteção dos
credores diante dos comportamentos oportunísticos dos
agentes econômicos que mesmo podendo pagar encontram
mecanismos e artifícios legais de não cumprimento
de seus compromissos acabam elevando o spread bancário.
Não bastasse isso, existe uma equivocada tributação
sobre a intermediação financeira, peculiaridade
brasileira, que distorce fortemente o custo do capital no
Brasil.
Precisamos
trabalhar juntos para reduzir fortemente as chamadas falhas
de mercado e cooperar bastante mutuamente para que o país
possa construir as bases de uma estrutura moderna de financiamento
de seu desenvolvimento. As instituições financeiras
estão muito entusiasmadas com esta perspectiva. Devemos
empenhar esforços para que o crédito cresça
no Brasil, mas não qualquer crédito e sim o
crédito de boa qualidade, seja ele originário
de bancos privados ou de bancos públicos.
Banco
saudável, é banco rentável que zela pela
segurança e pelo retorno das aplicações
de seus depositantes que confiam aos bancos a administração
de suas poupanças. Portanto, o principal compromisso
das instituições financeiras é a defesa
de seus depositantes e aplicadores. Instituições
financeiras pouco rentáveis não são confiáveis
às vistas dos clientes que buscam delegar seus recursos
somente a instituições consideradas sólidas.
Em outras palavras, bancos de reduzida rentabilidade não
inspiram respeito da clientela. E mais do que isso, bancos
pouco rentáveis em meio ao sistema financeiro elevam
o risco sistêmico e são passíveis de colocar
em risco a saúde financeira de outros bancos e de empresas
rentáveis.
A
racionalidade econômica permeia todas as decisões
dos agentes econômicos, que são inerentemente
maximizadores de utilidade. Os consumidores buscam maximizar
seu bem-estar e as empresas, seu lucro. Isso não poderia
ser diferente para o sistema bancário, que toma sua
decisão de oferta de crédito com base na maximização
de lucro. Essa lógica econômica é desejável
pois trata-se de uma condição para a eficiência
do sistema, o que significa a adequada alocação
de recursos na economia. Entretanto, falhas de mercado podem
gerar distorções na alocação de
recursos. É sob este prisma que devemos analisar a
questão dos elevados spreads bancários.
Febraban - Federação Brasileira dos Bancos
|