O setor bancário brasileiro em 2002



O ano de 2002 foi conturbado para o setor bancário no Brasil. O País conviveu com uma turbulência macroeconômica poucas vezes vista: saídas de reservas internacionais, volatilidade exacerbada dos mercados e queda das expectativas de crescimento da economia. Como reflexo, o EMBI+ do Brasil (ou Risco-Brasil) subiu de 863 pontos em 30 de dezembro de 2001 para 1.446 em dezembro de 2002. Foi um período excepcionalmente árduo. As linhas de crédito externas foram encolhidas, a atividade econômica caracterizou-se por um processo de stop and go, as expectativas sobre a taxa de juros básicos se mostraram intermitentes.


Fonte: JPMorgan

Os bancos adaptaram-se ao cenário mais turbulento, reconhecendo seu caráter transitório e, desta forma, realocando suas carteiras. Isto explica o fato de terem suas taxas de crescimento superiores às do resto da economia.

A tendência de elevação do nível de bancarização manteve-se ao longo do ano. Destaque nesse ínterim para o início do SPB, o expressivo aumento dos correspondentes bancários e o aumento da oferta de crédito.

A oferta de serviços bancários também obteve crescimento a taxas superiores ao resto da economia, como resultado de investimentos em tecnologia e capital humano.

 

O SPB - Sistema de Pagamentos Brasileiro

O novo SPB - Sistema de Pagamentos Brasileiro, entrou em funcionamento em 22 de abril de 2002 com um piso de reserva de capital de R$ 5 milhões de patrimônio líquido das instituições operadoras (como exigência mínima do Banco Central), de forma a assegurar a máxima segurança à nova modalidade de liquidações financeiras. Tal limite de reservas foi reduzido rapidamente ao longo do ano. Nesse novo arranjo, todo o sistema bancário fica conectado com o Banco Central e mais cinco clearings, que passaram a funcionar gradualmente ao longo de 2002, seguindo cronograma de implementação do SPB. A implementação do novo SPB foi um dos eventos mais marcantes na área de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN dos últimos anos. A Diretoria Setorial da FEBRABAN, ao lado do Comitê Gestor do SPB, atuou em todo o processo, dando sugestões e participando de testes para aperfeiçoá-lo. O novo sistema traz embutido uma maior eficiência financeira, melhor integração comercial e financeira, mais estabilidade sistêmica e uma redução substancial dos riscos.

O SPB promove a redução do spread bancário, em razão do acirramento da concorrência bancária e da diminuição no risco individual das empresas que ficarão com mais liquidez e menos recursos bloqueados. Essas duas vantagens contribuem para reduzir o custo do dinheiro. Ou seja, contribui para melhorar a eficiência da intermediação bancária


Atendimento bancário

Em 2002, um destaque foi o aumento da abrangência do atendimento bancário através dos correspondentes bancários, especialmente a localidades sem nenhum tipo de atendimento. A CEF, através de 11.230 lotéricas; e o Bradesco, com o Banco Postal - que começou a oferecer serviços através de 2.483 pontos - foram os pioneiros. Desde outubro de 2002, todos os 5.659 municípios brasileiros já tinham algum tipo de atendimento bancário, um fato inédito desde a fundação do primeiro banco no Brasil em 1808, por Dom João VI

Atendimento bancário: Agências, PAB´s e Correspondentes Bancários

Agências
PAB's
Correspondencia
CEF
B.Postal
Outros
Total
DEZ2001
16.841
7.318
8.638
8.596
0
42
41435
DEZ2002
17.049
7.108
13.950
11.230
24.83
61
51881
CRESC.
1.23%
2,86%
61,49%
30,64%
-X-
45,23%
25,21%

Só no último ano foram instalados em torno de 6 mil postos eletrônicos. A introdução dos correspondentes bancários, definida pela resolução do Banco Central 2.707/2000, possibilitou uma capilaridade ainda maior no atendimento da população. De 2001 para 2002 o número de correspondentes registrou alta de 61,50%, totalizando 13.950 pontos em dezembro de 2002.

Na rede de atendimento, no período de um ano, cerca de 3,5 milhões de contas correntes e outras 7 milhões de contas de poupança foram abertas. Há estimativas de que o número de contas correntes deve dobrar na próxima década. E somente uma tecnologia cada vez mais avançada será capaz de atender a um contingente tão grande de clientes com velocidade, qualidade e segurança

Contas em bancos em dezembro de 2002 - milhões

Periodo
2001
2002
Variação % 2001/2002
Conta Corrente
63,2
66,7
5,5%
Conta de Poupança
51,2
58,0
13,28%

(1) Fontes: FEBRABAN e Abecip


Captações e aplicações

As operações de crédito do sistema financeiro aumentaram de R$ 332,3 bilhões em 31 de dezembro de 2001, para R$ 378,3 bilhões um ano depois, acusando um crescimento de 13,8% no período. Aproximadamente um terço do crédito foi destinado à indústria, um quarto a pessoas físicas, um quinto a outros serviços e o restante dividido entre habitação, rural, comércio e setor público

Operações de crédito por atividade econômica em dezembro de 2002 - R$ bilhões


Fonte: BACEN

 

A captação dos bancos teve variação positiva em 2002. A mais expressiva foi a de depósitos à vista (29,0%), seguida pela modalidade a prazo (27,9%) e de poupança (17,3%).


Captações em dezembro de 2002 - R$ bilhões

Captações
2001
Part. %
2002
Part.%
Variação % 02/01
Deposito a vista
51
18,3%
65,8
19,1%
20,9%
Deposito de Poupança
120
43,1%
140,8
40,9%
17,3%
Deposito a Prazo
107,6
38,6%
137,6
40,0%
27,9%
Total
278,6
100%
344,2
100%
23,5%

Fonte: BACEN

 

Serviços bancários

Os bancos continuaram a instalar ATMs (postos eletrônicos de auto-atendimento) multifuncionais para operações de saque (por meio de cash-dispenser - caixa eletrônico), depósito, obtenção de extratos e dispensador de cheques. A variação geral em relação a 2001 foi de 7,46%. As instalações de ATMs, em particular, tiveram um salto de 70,75%, totalizando 38.483 equipamentos.

Todos esses serviços automatizados fazem com que os custos das operações, no médio prazo, fiquem menores, gerando um impacto direto no custo para o cliente final.


Distribuição dos serviços automatizados e bancarização

 

Ano
Em
agências
Em ante-salas
de
auto-atendi-
mento
Quiosque
em
locais
públicos
Em postos
de 
atendimento
Total

Variação
% 
2002/
2001

ATMs - saque e depósito

2001

4.717

11.677

3.340

2803

22.537

70,75%

2002

11.490

17.718

4.396

4.879

38.483

Cash-dispenser

2001

36.991

13.700

1.557

5.818

58.066

10,22%

2002

33.781

17.814

4.303

8.100

63.998

Terminal de depósito

2001

10.263

7.627

7

219

18.116

5,48%

2002

11.750

4.820

1.332

1.206

19.108

Terminal de extrato e saldo (1)

2001

12.159

10.974

150

976

24.259

-61,63%

2002

4.747

2.825

0

1.736

9.308

Dispensador de cheques

2001

6.791

2.260

9

32

9.092

21,19%

2002

8.506

1.884

573

56

11.019

Total

2001

70.921

46.238

5.063

9.848

132.070

7,46%

2002

70.274

45.061

10.604

15.977

141.916

Fonte: FEBRABAN


Em dois anos, praticamente dobrou o número de clientes que utilizam Internet Banking. Em 2000 existiam 8,3 milhões de usuários e, no ano passado, o sistema bancário contabilizou perto de 15 milhões, a maioria pessoas físicas. Outra ferramenta utilizada em larga escala pelos clientes é a URA, sigla para Unidade de Resposta Audível. Em 2002, essa modalidade de atendimento teve 1,133 bilhão de acessos.

 

Clientes com acesso à internet (em milhões)

 

Periodo
2001
2002
Variação %
02/01

Clientes com Home Banking (P.F.)

2,4

0,1

-96,6%

Clientes com Office Banking (P.J.)

1,3

0,4

-67,0%

Clientes com Internet Banking

13,0

14,9

14,1%

     Pessoa física

-

13,6

-

     Pessoa jurídica

-

1,3

-

Consultas à Unidade de Resposta Audível (URA)

1.328,4

1.132,8

-14,7%

Fonte: FEBRABAN

Por meio de uma extensa rede de atendimento, os clientes e usuários de bancos recebem benefícios do INSS, realizam pagamentos do FGTS e de todos os tipos de tributos e contas. A Tecnologia da Informação cumpre assim, função de relevante interesse social.

 

Serviços de arrecadação e pagamentos para concessionárias e órgãos públicos

Periodo
2001
2002
Variação %
02/01

Contas de concessionárias de água, energia, saneamento, telefone e gás (1)

1.202.366.196

1.049.832.258

-12,69%

Faturas de concessionárias debitadas automaticamente nas contas dos clientes

289.770.253

255.446.281

-11,85%

Guias de tributos municipais, estaduais e federais, do FGTS, INSS, DPVAT e Ibama (1)

427.671.542

503.937.691

17,83%

Pagamentos do FGTS, de aposentados e pensionistas do INSS

247.392.582

253.407.758

2,43%

Total

2.167.200.573

2.062.623.988

-4,83%

Fonte: FEBRABAN

O total das transações bancárias manteve-se praticamente inalterado em 2002. Mudou, no entanto, a origem das operações. Hoje em dia é possível fazer a maioria das transações sem sair de casa ou da empresa. Basta acessar a home page de seu banco, utilizar o sistema de atendimento telefônico ou, ainda, se dirigir a um dos 13.950 correspondentes bancários . Nos Postos de Venda no Comércio (POS), o número de transações registrou alta de 44,5%. Mas a explosão está na utilização do canal Internet Banking - um salto de 177,9%, passando de 820,4 milhões de operações registradas no ano anterior para 2,28 bilhões.


Transações bancárias por origem

2000
2001
2002
Variação
Quantidade
Part.%
Quantidade
Part. %
Quantidade
Part. %
2002/2001

Automáticas externas

556.712.639

3,4%

653.111.035

3,3%

691.789.854

3,5%

5,9%

Automáticas internas

3.585.073.509

21,8%

4.006.026.514

20,2%

4.391.307.081

22,5%

9,6%

Auto-atendimento

6.615.656.359

40,3%

7.765.556.839

39,2%

6.094.450.794

31,2%

-21,5%

Home e Office Banking

813.702.698

5,0%

736.554.636

3,7%

709.131.607

3,6%

-3,7%

Internet Banking

369.779.262

2,3%

820.410.109

4,1%

2.279.806.252

11,7%

177,9%

POS  - Ponto de Venda no Comércio

313.894.301

1,9%

380.108.153

1,9%

549.100.608

2,8%

44,5%

Envolvendo funcionários

4.027.473.117

24,5%

5.187.684.510

26,2%

4.462.621.457

22,8%

-14,0%

Outras

129.636.735

0,8%

241.849.772

1,2%

380.023.279

1,9%

57,1%

Total

16.411.928.620

100,0%

19.791.301.568

100,0%

19.558.230.932

100,0%

-1,2%

Fonte: FEBRABAN

Investimentos

O volume de investimentos dos bancos em Tecnologia da Informação (TI) superou R$ 3,53 bilhões no ano passado - 13,2% a mais em relação a 2001. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o setor injetou mais do que o dobro da média nacional. Os softwares adquiridos de terceiros registraram a maior variação (37,3%), seguido pelos desenvolvidos no próprio banco (23,5%) e pela aquisição de hardware (9,1%). A exemplo do ano anterior, continua em queda a compra de equipamentos e linhas de comunicações.

Periodo
2001
2002
Variação %
02/01

Hardware

1.476

1.610

9,1%

Equipamentos / Linhas de comunicações

301

193

-35,9%

Softwares adquiridos de terceiros

509

699

37,3%

Softwares desenvolvidos no próprio banco

838

1.035

23,5%

Total

3.124

3.537

13,2%

 

Fonte: FEBRABAN

Distribuição de resultados entre bancários, governo e acionistas

Dez /00 Part.% Dez /01 Part.% Dez /02 Part.% Part.Média%

  Recursos Humanos

26.900,217

60,6

28.164.159

69,2

29.083,925

42,3

57,3

     Salários e honorários

15.638.128

35,2

16.202.401

39,8

16.760.370

24,4

33,1

     Encargos Sociais

7.819.064

17,6

8.101.201

19,9

8.380.185

12,2

16,6

     Benefícios

2.606.355

5,9

2.700.400

6,6

2.793.395

4,1

5,5

     Participações (Funcs e Minoritários)

836.670

1,9

1.160.157

2,8

1.149.975

1,7

2,1

  Governo

9.843.160

22,2

10.806.521

26,6

15.862.904

23,1

23,9

     Despesas Tributárias

3.600.187

8,1

4.250.319

10,4

5.478.947

8,0

8,8

     Imposto Renda e Contribuição Social

821.755

1,9

939.370

2,3

4.098.818

6,0

3,4

     INSS sobre salário

5.421.218

12,2

5.616.832

13,8

6.285.139

9,1

11,7

  Líquido para Acionistas

7.679.713

17,3

1.738.951

4,3

23.866.329

34,7

18,7

     Dividendos e Lucros reinvestidos

11.097.879

25,0

15.914.296

39,1

25.710.047

37,4

33,8

     Prejuízos

-3.418.166

-7,7

-14.175.345

-34,8

-1.843.718

-2,7

-15,1

Total

44.423.090

100

40.709.631

100

68.813.158

100

100