CDES: Spread bancário 10 de novembro de 2004             

11.11.2004

Márcio Cypriano

Senhores,


Uma etapa difícil foi vencida· O quadro macroeconômico intrincado do início deste governo foi superado e ocorreu uma transformação respeitável· O pessimismo externo mostrou-se equivocado, nossa balança comercial vai bater um novo recorde histórico, o saldo projetado em conta corrente deve exceder os US$ 10 bilhões e as projeções de investimento direto estrangeiro estão sendo revistas para cima·

Os números da atividade do País são contundentes em mostrar que a economia brasileira começou a crescer· O País está pronto para decolar· As previsões para 2004 indicam que a economia vai crescer em torno de 4,5%·

As perspectivas para 2005 são animadoras: a médio e longo prazo a tendência é de queda da taxa Selic, os ganhos de escala e de produtividade dos bancos e a menor volatilidade macroeconômica apontam para uma queda dos juros· É o que todos nós esperamos·

Abre-se uma janela de crescimento que, se bem aproveitada, permite sustentar e até mesmo aumentar o ritmo de expansão da economia brasileira por muito tempo·

O crescimento sustentado, com inflação baixa e sob controle, é condição necessária para avanços expressivos na nossa agenda de desenvolvimento· Há demandas sociais que têm de ser atendidas e não merecem ser postergadas indefinidamente·

Temos todas as condições para nos desenvolvermos de forma acelerada e nenhum obstáculo será intransponível, mas temos de agir para chegar lá· Caso contrário, será mais uma chance perdida para o Brasil e a janela se fechará·

Pois enquanto uma janela de crescimento é resultado de conjugações circunstanciais, o crescimento sustentado é fruto de um aumento no investimento e de sua produtividade· Para tanto é necessário atuar nessas duas frentes: a da produtividade e a do investimento·
Atualmente, os juros finais brasileiros estão entre os mais altos do mundo e muita tinta tem sido gasta responsabilizando unicamente os bancos, de forma equivocada·

A raiz dos juros altos é complexa e envolve outros fatores, como a consistência de política macroeconômica, o peso do custo da burocracia, a informalidade, a dinâmica da economia, além das incertezas jurídicas a contratos formalmente legítimos·

No Brasil, a formalização de garantias depende de cartórios, registros com custos elevados que no momento da execução não prevalecem· Em um processo de falência no Brasil, apenas 1% do crédito é recuperado ao passo que na Europa esse índice chega a 90%·

Existem cerca de 400.000 ações revisionais de crédito na maioria das quais o devedor obtém autorização para deixar de pagar inclusive o principal· Até mesmo instrumentos amplamente debatidos entre Governo, empresários e centrais sindicais, como a consignação de parcelas em folha de pagamento são questionados e enfraquecidos no momento da execução·
Alguns números mostram como a formação das altas taxas de juros envolve fatores que estão fora do alcance do Setor Financeiro· Por exemplo: basta dividir o lucro do sistema bancário, da ordem de R$20 bilhões, pela carteira de crédito que é superior a R$400 bilhões, para verificarmos que o spread líquido dos bancos é inferior a 5% ao ano·

Por outro lado, se um banco fizer um empréstimo por 30 dias, sem cobrança de juros ao tomador, não remunerando o investidor, não cobrando tarifas na operação e tiver inadimplência zero, ainda assim o tomador terá uma despesa de 29,40% anualizado ao se aplicar o peso financeiro da CPMF, do FGC, PIS, Cofins, IOF e dos compulsórios· Um obstáculo que é preciso superar, caso desejemos que os juros caiam·


Um outro ponto a ser considerado na questão das taxas de juros finais é que, atualmente, a soma de depósitos compulsórios e os créditos direcionados, ambos com taxas tabeladas, é superior à carteira livre do sistema· Ou seja, uma parcela menor do crédito tem que subsidiar uma parcela maior·


Temos que modernizar o quadro institucional para operações bancárias que está obsoleto e é inadequado para o século XXI· Os direitos dos credores devem ser defendidos de maneira célere, previsível e eficiente, o que não acontece·

Os novos instrumentos contratuais, tais como o Patrimônio de Afetação, a Retomada de Bens Alienados e a Cédula de Crédito Bancário, devem ter da nossa Justiça o devido entendimento, no sentido de que se busca a segurança do crédito como um bem da coletividade e não um benefício em favor do agente financeiro· São milhares de horas de advogados talentosos desperdiçadas por excessos de recursos protelatórios e formalismos desnecessários·

Além disso precisamos avançar na aprovação da Lei de Falências, na desobstrução da Justiça por meio de processos e métodos mais racionais, na discussão e aprovação de Lei que tipifique adequadamente os crimes praticados com uso de meios eletrônicos que têm crescido fortemente em nosso País·

Por tudo isso, me permito colocar três questões para reflexão das Autoridades Monetárias:
1. Não seria possível se trabalhar com uma programação para redução progressiva e sistemática dos depósitos compulsórios e dos créditos direcionados, visando-se à redução do spread e aumento da oferta de crédito?


2. Não poderia o Banco Central atuar com mais ênfase na defesa da legalidade e efetividade das operações bancárias, por meio de esclarecimentos e proposições aos Poderes Legislativo e Judiciário?


3. Estaria o Banco Central disposto a propor, como órgão regulador, medidas visando à redução dos custos de retaguarda - também conhecidos como custos de observância - dos bancos?


O Presidente Henrique Meirelles tem demonstrado muita atenção e preocupação para com o aumento da oferta de crédito, fazendo com que o País ocupe o seu lugar de destaque· Lembro a todos que, com mais poupança disponível e um canal bancário mais eficiente haverá juros mais baixos e, consequentemente, mais investimentos, e o esperado crescimento sustentado·
O crescimento sustentado é uma urgência, e concretizá-lo é desejo de todos; a nossa missão, no CDES é apontar o caminho para materializar essa aspiração nacional que pode ser a constituição de grupos temáticos·
A Febraban está totalmente aberta à discussões com transparência que possam beneficiar a sociedade pois também a nós interessa juros mais baixos pois reduz a inadimplência e aumenta a demanda por crédito.


Obrigado·